sábado, 31 de janeiro de 2009


O tempo é 1418. Estamos no mês de junho, nas terras sudestes do Reino da Espanha, não muito distante do Mediterrâneo. O Sol cintila alto neste começo de verão, e seus raios iluminavam até a mais escura morada. Eu sou Lioni Diosen, trovador das províncias do norte. Meu plano mais ousado em vida era poder cantar no meio de uma multidão uma lenda protagonizada por mim mesmo. Não tenho passado, meu futuro é muito incerto. A única coisa que possuo neste momento, e isso descobri há duas semanas, é um destino. As páginas do livro de minha vida estão claramente traçadas. Ao que parece, resta-me apenas segui-las...

Diosen, "pertencente a Deus", em língua antiga.
Não é meu nome de batismo, pois esse eu não tenho. Foi a primeira palavra que pronunciei quando acordei, na Foresta de la Fontana.

- Sim, já podemos continuar. - disse-lhe eu - Estamos a caminho do Porto de las Callas, não é isso?
- Sim. - respondeu ela suavemente - A cavalo, devemos atingir seu território em seis dias. Lá recrutaremos o primeiro.
- Como saberemos que é ele? - questionei.
- Ele carrega consigo o sinal. Nós saberemos quando o virmos.
- Hum... mas se ele é um mercenário, precisaremos de uma boa quantia em moedas para convencê-lo a se unir a nós. De outro modo, dificilmente ele aceitará participar de uma empreitada tão improvável e perigosa.
- Bem, tenho certeza de que você cuidará desse aspecto. - disse ela sorrindo, que sinceramente não consegui saber se com ironia ou com pura segurança.




Consegui dois cavalos e segui para a saída do vilarejo. Era bom poder ter uma calma passagem por um lugar como aquele. Longe dos tumultos. Deveria lembrar de render preces aos habitantes de lá, e aos jovens Gabriel e Jamón. Um dia, desejaria voltar e lhes contar o fim da trajetória de Aren e Sírio. Mas com certeza sabia que, caso voltasse, teria muitas outras histórias para contar.
Já avistava o fim das casas e o começo da estrada. Minha acompanhante estava de pé, pronta para seguirmos. Qual seria o destino final, ainda era incerto.

- Devemos prosseguir agora. - começou ela. - Temos um longo caminho pela frente, e o tempo pode não estar a nosso favor.

Dei uma boa olhada para ela. Não era alta, embora não fosse baixa, olhos verdes e longos cabelos negros de cigana. Pele branca, macia e traços delgados. Vestia um traje vermelho cintilante, e sua beleza emanava de todos os cantos, ainda que não exibisse mais do que um tímido sorriso em seus lábios. Às vezes, em lugar da doçura, demonstrava uma fria e perigosa serenidade em seu olhar. Cada palavra que deixava sua boca parecia ser certa, atingia o ponto exato. Ela sabia exatamente do que estava falando, e isso dava ainda mais credibilidade ao que me dizia. De fato, devia ser quem dizia ser.
Seu nome não me fez questão de dizer. Atendia apenas pelo nome de Avatar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009


Levantei-me devagar, vendo meu jovem público desaparecer entre as madeiras velhas das paredes e as portas grosseiramente fechadas, como um claro sinal de que alguém não era bem-vindo àqueles lares. De fato, bardos não tinham grande fama entre as famílias camponesas. Para elas, éramos apenas vagabundos que ficavam cantarolando histórias inventadas de guerreiros e dragões para arrancar de uns trouxas algumas moedas para sobreviver. Realmente, não posso culpá-las. A verdade não se distanciava muito disso. A não ser pelo fato de que, por sermos andarilhos de cidades, florestas e mares, não precisávamos inventar todas as histórias que contávamos. Bastava manter os ouvidos abertos e os olhos atentos. E, porventura, acrescentar um dragão ou dois grifos ao enredo. As pessoas adoram histórias fantásticas, pelas quais são encantadas e temerosas. Principalmente por aquelas que têm a certeza de ser reais. Quando as ouvem, não são muito diferentes daquelas crianças que sentam em fileiras, fazem perguntas e gritam ao menor sinal de suspense.

Observei o vilarejo em que me encontrava, a caminho de meu destino. Casas de madeira bruta, algumas de barro. Um estábulo à esquerda me permitiria ao menos conseguir um cavalo para a estrada. Hortas e mais hortas me diziam que aquele não era um lugar de comércio, mas de plantação. Como suspeitado, não avistei nenhuma taberna em que pudesse contar algumas histórias e, com sorte, ganhar uma garrafa de vinho de um velho bêbado e bigodudo ávido por lendas do Oriente.
Já tinha estado no Oriente uma ou duas vezes, embarcando como convidado em um navio mercante, para agradar e distrair a tripulação de marujos fétidos e sem dentes. Felizmente, essa não foi a parte mais agradável de minha passagem pelo Mediterrâneo. A parada no Cairo me fez conhecer arrojadas arquiteturas náuticas e duas exuberantes mulheres, com quem não passei mais de uma noite. A mesma noite.

Bem, mas infelizmente não tenho tempo para fantasias orientais ou lembranças romanescas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

I - Passos



"Na gigantesca e tenebrosa Montanha Cinzenta, os corvos se amontoavam sob os céus, obscurecendo a face das rochas e causando calafrios em quaisquer transeuntes que ali se encontrassem. Mas o que faziam ali corvos, no alto de uma montanha assustadora como aquela? Gostavam eles do perigo, ou queriam voar o mais alto que conseguissem, numa competição? Não. Eles tinham fome. E perceberam que poderiam se alimentar da carne dos aventureiros que já haviam tentado - e apenas tentado - a perigosa escalada e hoje não são mais do que... comida de corvos."

- Huh!

"Sim, mas era justamente naquela montanha que o valente Aren e seu escudeiro, o jovem Sírio - que tinha mais ou menos a sua idade, garoto - deveriam resgatar a bela e indefesa Galatea das garras do terrível Monstro de Duas Cabeças."

- E ele tinha duas cabeças mesmo?

"Era exatamente por isso que ele tinha esse nome."

- E como era esse monstro?

"Isso ninguém sabia, mas era o que o bravo aventureiro estava prestes a desvendar. Aren e Sírio começaram sua jornada incansável montanha acima, sem se deixarem intimidar pelo sinistro canto dos corvos. Eles não tinham tempo a perder; qualquer momento desperdiçado poderia ser fatal para a doce Galatea e para a honra do guerreiro.
Subindo e escalando, certa hora eles começaram a ouvir um grunhido ao longe, que se assemelhava ao de um urso selvagem agonizando. Eles sabiam que se tratava do monstro, e apressaram seus passos em direção ao topo da montanha. Quanto mais se aproximavam, mais o grunhido aumentava, junto com as batidas do coração de Sírio, que sofria pequenos tropeços em alguma pedra no chão. Não só o grunhido, mas agora também os passos do monstro eram audíveis, e faziam toda a Montanha estremecer. De repente, os heróis ouvem um estrondoso grito agudo!"

- Ahh!!!
- Ahh!!!

"Sim, muito pareciso com esses. Os valentes guerreiros se exaltaram e sacaram suas espadas, pois sabiam que a jovem donzela era a autora daquele grito. Temendo por sua integridade, rapidamente avançaram rumo a uma caverna no alto da montanha, passos cortantes para salvar a donzela do gigante horrendo, todo o chão e as paredes tremiam, eles aceleraram suas lâminas ao ar na direção do desconhecido e cortaram o vazio em suas frontes quando de repente!..."

- Crianças, saiam já daí! Não fiquem ai ouvindo as fantasias desse maluco! - falou uma voz ao fundo.
- Mas mãe, o cavaleiro Aren e o jovem Sírio vão enfrentar o monstro agora! - lamentou um dos ouvintes, o mesmo que fazia as perguntas enquanto eu contava a história.
- Não quero saber dessas besteiras! Gabriel, Jamón, venham já para casa! Se seus amigos quiserem ficar, eles que se entendam com as mães deles!
- Me desculpe. - disse Gabriel - mas depois eu quero ouvir o que aconteceu com Aren e a Galatea.
- E com Sírio, e com o Monstro de Duas Cabeças! - lembrou Jamón, o caçula que tinha mais ou menos a idade do escudeiro.

Eu apenas sorri e balancei a cabeça, enquanto via os dois garotos e os demais sairem correndo em direção às suas casas, imaginando que fim teria levado o nobre cavaleiro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009


. . .

- E se eu quiser somente me aventurar em terras calmas e tabernas ruidosas? Por que eu tenho de carregar esse fardo?
- Você veio para eliminar os fardos. Muitos dependem de você.
- Eu não sou um herói... não terei eu outra escolha?
- Não.
- Está dizendo que não somos livres para escolher?
- Não... estou dizendo que a sua escolha já foi feita.

. . .

Às vezes, todo o meu desejo é deitar em uma relva macia e ouvir uma bela canção. Ou apreciar, recostado em uma árvore, no alto de uma colina, o parco movimento de camponeses em um vilarejo simples e primitivo. Ou desfrutar da companhia de mulheres agradáveis, voluptuosas, por quem poderia me apaixonar perdidamente por uma noite, e esquecer assim todos os eventos externos.
Às vezes, mas não mais. Sei que esse é um desejo do qual jamais poderei desfrutar novamente. Espero que tenham guardado as canções e as histórias mais fantásticas. A partir de agora, as melodias serão muito diferentes.

. . .

- É hora de partir.
- Há falhas no destino?
- Como?
- ... Perguntei se há falhas no destino.
- ... Vamos esperar que não.

Fim do Prólogo

- O que você quer de mim?
- Você tem um propóstio a cumprir. Algo para o qual você foi criado. Sabe o que deve fazer. Sempre soube.
- Eu não compreendo. E se eu não estiver preparado? E se eu não for capaz? Não acho que nenhum ser humano possa carregar um fardo como este.
- ... Mas você pode.
- Não posso realizar isso sozinho...
- Você não está sozinho.

Quando se ouve o som do vento forte de um início de outono, soprando nas folhas das antigas e robustas árvores de um bosque, ao mesmo tempo em que se ecoa o canto dos pássaros e seu bater de asas sob um céu límpido, enquanto a grama resvala e estremece ao toque cortante das garras de um tigre faminto que ruge para intimidar sua presa, não é possível perceber qualquer conexão entre esses sons e seres. Para um observador desatento, eles simplesmente surgiram naquele cenário, cada um lutando para existir e sobreviver. A melodia parece caótica e inesperadamente algo parece romper.
O vento rompe, e a aurora, os pássaros, e o tigre. Apenas uma mente perspicaz reconhecerá a frágil e doce harmonia existente tanto em ar quanto em terra. Apenas um mente perspicaz saberá que um som só existe por causa do outro, um sustenta o outro, não há um sem o outro. Essa mesma mente silenciará seus antigos dogmas, fechará os olhos - pois não importa a espécie de folha ou a aparência do tigre, e sim o som que emanam - e será capaz de escutar a mais bela canção já composta. As cores não importam, elas mudam; a vida, passa; mas os sons ecoam para sempre naqueles que ficam na canção.
Se a melodia receber notas ruins ou uma afinação inadequada, não teremos canção.
Teremos caos.

. . .

Prólogo de novos tempos


Uma hora ou outra somos arremessados para um novo universo de histórias e tramas. As chamas que queimavam em uma direção agora a fazem em outra. Se antes ardiam agora enrengelam.

Somos bardos. Vivemos de histórias contadas, épicos de grandes heróis e demônios internos e externos. Observamos o mundo para que depois, talvez, possamos entendê-lo ou, ao menos, cantá-lo.

Buscamos verdades, mas talvez não estejamos preparados para elas. Talvez seja melhor assim. Diante do que eu já vi em minha vida e em minhas andanças, posso lhes assegurar: muitas pessoas não merecem conhecer a verdade. Merecem coisa melhor para suas existências.

Atravessamos aventuras sem lutá-las, senão com palavras. Sobrevivemos para contar história, literalmente. E essa talvez seja a mais árdua tarefa. Morrer em batalha pode ser mais nobre, mas não é mais árduo. Sobreviver ao inferno e poder cantá-lo; nunca vi alguém senão um dos nossos capaz de fazê-lo.


Que tenha início os contos do Bardo.